sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

alheio ao cérebro

Catedral - Artêmio Fonseca de Carvalho Filho


alheio ao cérebro

de tudo quanto guardo na memória,
alheia-me do cérebro a mais viva
vivência, transcorrida na instintiva
idade de uma mente extracorpórea.

depois, em profusão de copa arbórea,
neurais sinapses, tino que nos criva
na cruz da nossa humana e purgativa
jornada até que venha o fim da história.

por isso tenho apreço a fase dantes,
a fase do ideal que permanece,
a fase consistente e mais constante.

e, após a copa arbórea que perece,
revele-se ela tão dessemelhante
na vida que de crivos não padece.


marcos satoru kawanami


quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

PARDAL



pardal

talvez alguma ideia positiva
conduza minha lira velha, um dia,
aos dias da pretérita alegria
que agora, a relembrá-los, me incentiva.

porém, ao ver cantar a patativa,
notei o quão pardal que pouco pia
tem sido minha estranha poesia,
jogada no papel de forma esquiva.

calando, pois, escrevo meu presente,
presente positivo e bem empírico
conforme o dia-a-dia, comumente.

e, à noite, dou vazão ao estro lírico,
o qual, à luz do sol, calou latente
seu canto de pardal, seu canto onírico.


marcos satoru kawanami


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

PURGATÓRIO - coordenadas geográficas: 37°10'34''N 8°12'7''O

Purgatório: aldeia da freguesia de Paderne,
concelho de Albufeira, província de Algarve, Portugal.


purgatório

na falta de uma ideia, resolvi
escrever sobre a falta de uma ideia,
porém a baranguíssima mocreia
das musas inspirou-me isto daqui:

o cão chupando manga, um dia, eu vi,
no dia de são joão da cananeia,
patrono do piri, da diarreia,
e é quase bem provável que sumi.

entornei-me do avesso na latrina,
cheguei a ter visões do purgatório,
visões da crueldade mais divina.

e foram tão sinceros responsórios,
que, mesmo me faltando a hemoglobina,
jamais tanto rezei num oratório.


marcos satoru kawanami


idade da pedra



idade da pedra

um puto joga pedras para cima,
brincando alienado e muito vivo:
a vida já lhe serve de incentivo,
bastando-se por ter a sua estima.

a infância a celebrar entanto prima,
sabendo que é feliz, sem pôr o crivo
racional sobre tempo tão festivo,
e move ocasião para esta rima.

estando tudo bem, uma pedrada
(que tem a sua gênese no puto)
contempla uma vizinha malfadada.

infância..., quanto pranto, quanto luto,
quanta vez a mamãe dá chinelada,
oh, mundo lazarento, oh, mundo bruto!


marcos satoru kawanami


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

sirenes



sirenes

distante, bem distante das distâncias;
acerca, bem acerca do que é vago;
fluente, mais fluente do que um gago
abunda em relutantes redundâncias.

sirenes retumbantes de ambulâncias,
perene mal, perene e sem afago
afogo em destilado neste trago,
soleira do sapé das mendicâncias.

eu cago, cagas tu e o mundo todo
na porta vicinal, que coisa linda!:
afaga-nos um mar de merda e lodo.

a detergente luz será bem-vinda,
limpando com vassoura, escova e rodo
o perecível mal, perene ainda.


marcos satoru kawanami



segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

porque consegue

Sarau (1880) - Columbano Bordalo Pinheiro


porque consegue

maria ferveu água para o chá.
jacob, não encontrando o bandolim,
pegou o cavaquinho, e fez plim-plim
na sala da casinha de sinhá.

foi quando lá cheguei, e cheguei lá
porque não vim de lá, de lá não vim;
a paz não tem começo nem tem fim
nesta terra onde canta o sabiá.

onde a cantar também assaz me obrigo,
torrando a caçoleta feito um jegue
trotando no sol quente, sem abrigo.

se a paz daquela casa é flor que eu regue,
degusto a alheia paz porque consigo,
cachorro lambe o cu porque consegue.


marcos satoru kawanami



domingo, 10 de dezembro de 2017

sempre inexistido



sempre inexistido

amor, felicidade, a peremptória
vontade derradeira dos viventes,
o medo de supor estar-se ausente
transita pelas mentes transitórias.

derrotas contumazes, vãs vitórias
parecem nunca ser suficientes,
e morre a humanidade descontente,
fazendo vista cega à sacra história.

mas não façamos nós ouvidos moucos,
se somos da razão favorecidos,
se ainda não estamos todos loucos.

notemos neste mundo decaído
que o que eterno não é é sempre pouco,
é a nulidade, o sempre inexistido.


marcos satoru kawanami


sábado, 9 de dezembro de 2017

O PARTO



O PARTO

De que poema vi nascer, um dia,
a musa que abstraiu-me para si?,
de que poema que eu não escrevi?,
mas no qual a escrevê-lo ela me urgia.

Dizendo assim, parece poesia
— acaso é mesmo o que se assenta aqui —,
mas o efeito de muita parati
resulta em fato que eu desprevenia.

Resulta num poema à musa antiga
que dele vem nascendo até agora,
e, a fim de o escrever, foi minha amiga.

No próprio nascimento colabora
a musa, que, ao nascer, inda me obriga
a um derradeiro verso, e vai embora.


Marcos Satoru Kawanami



obs: parati é sinônimo de cachaça; a cidade de Parati é um importante polo produtor da bebida desde o tempo do Brasil colônia.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Guerra de Canudos - filme de Sérgio Resende - elenco: José Wilker, Marieta Severo, Paulo Betti, Cláudia Abreu, Tonico Pereira, José de Abreu, Selton Mello, Roberto Bomtempo, Tuca Andrada - soneto: RESISTÊNCIA

Filme: link


RESISTÊNCIA

Antônio Conselheiro, a monarquia
talvez mereça mesmo ser louvada
governo após governo, pois, a cada
governo, esta república é sombria.

Com fé, com resistência, conduzias
aquela gente heroica relembrada
nos versos que ora escrevo, na jornada
errante da nação dos hoje em dia.

Canudos não rendeu-se, resistiu
até ser devorada pela morte,
até tombar seu último fuzil.

De modo que o arraial ainda é forte,
resiste com bravura ao fogo hostil,
resiste até que achemos melhor sorte.


Marcos Satoru Kawanami


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

PLANETA D+



planeta D+

legal, maneiro, giro, bem D+,
sinistro, cabuloso o instante agora
parece que foi ontem, muito embora
existam outros tempos ancestrais.

liberto, a navegar de cais em cais,
o espírito do tempo ainda chora
na transitoriedade lá de fora
do jeito que choravam nossos pais.

do jeito que sorriam os primatas
que estão a nos sorrir, legal, maneiro,
D+, sinistro, giro, cabuloso.

tentando equilibrar-se sobre as patas,
o bípede primata é estrangeiro
no cais deste planeta fabuloso.


marcos satoru kawanami


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Grêmio 1 x 0 Lanús - Copa Libertadores da América - jogo do dia 22 de novembro de 2017 em Porto Alegre



Grêmio 1 x 0 Lanús

O gol, quando não sai, é zero a zero,
mas zero a zero é nota e não placar,
dizia um entendido ao expressar
a sua opinião sem lero-lero.

Vencer por placar mínimo (um a zero)
então é goleada de lavar
a égua, e tanta festa há de espantar
um sócio do gramado: o quero-quero.

Assim, o Grêmio vence o tal Lanús,
fazendo a alegria da galera,
fazendo o Porto Alegre e mais feliz.

Ao jogo, esse placar fez mesmo jus,
pois quase que o Galvão fica uma fera
por conta do estrabismo do juiz...


Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

gol de bunda


gol de bunda

nas coisas mais ou menos há bom uso
da graça do improviso funcional:
um verso pé quebrado ou coisa e tal,
um prego no lugar de um parafuso,

a explícita presença do confuso,
a má compreensão que não faz mal,
a prova que não é prova cabal,
o meia boca agudo em sendo obtuso,

o duvidoso que por fim dá certo,
sabença na cegueira mais profunda
do bobo que demonstra ser esperto,

esta alegria que nos sempre inunda
ainda que a sofrência esteja perto,
um gol de placa, mas... um gol de bunda.


marcos satoru kawanami


terça-feira, 21 de novembro de 2017

o vento


o vento

nos planos de papel, bateu um vento,
um vento forte, o vento do destino,
devido ao qual somente agora atino
que muita vez é vão planejamento.

das coisas que tentei, enfim, atento
que desde a madrugada ao sol a pino
somente o incogitado é o que ora assino
e reconheço ser de bom intento.

bendito vento, santa mão do céu;
contrariando-me, o melhor se fez
melhor que aqueles planos de papel.

de modo que agradeço toda vez
se um vento sobre mim depõe seu véu
de proteção tocando minha tez.


marcos satoru Kawanami


sábado, 18 de novembro de 2017

A FEDELHA


A FEDELHA

Fedelha afeiçoada a um bom conflito,
a filha de seu pai, que a desconhece,
inspira muita gente a fazer prece,
inspira este soneto, em que reflito.

Esmera-se em no mal fazer bonito,
quer ser o espeto em tudo que acontece,
pois ela está sozinha, e grande é a messe,
faz arte pela arte..., entanto a imito(?).

Fedelho que já fui feliz um dia,
agora só contemplo o refinado
bom gosto do mau gosto com saudade.

No tempo em que escrever eu não sabia,
melhor talvez teria sonetado,
com menos rima rica, e mais verdade.


Marcos Satoru Kawanami


terça-feira, 14 de novembro de 2017

ESSE GALO BOTA OVO


ESSE GALO BOTA OVO

Gaudêncio, de carranca, e barba hirsuta,
macheza exala em todo canto e hora,
não dá vazão à fala, nunca chora,
mas sei que já provou de estranha fruta...

Daí provém a sua inútil luta,
fugindo e procurando jogar fora
passado que hoje em dia lhe penhora,
porquanto ao que aparenta não se suta.

Coitado do Gaudêncio, virou galo,
um galo que alguns ovos tem botado...
mantendo a crista sem qualquer abalo.

E parece que o mesmo triste fado
faz eco quando alguém põe-se a cantá-lo,
alguém que por aí já deu o dado.


Marcos Satoru Kawanami


sábado, 11 de novembro de 2017

ASPAS - sátira - gírias e expressões humorísticas



ASPAS

Naiara enfim habita um belo lar
depois de tantos anos de maloca,
mas dizem que ela se acha “o gás da coca”,
pois maldizer é gosto popular.

Desafeito à tosquice de maldar,
eu acho que Naiara é uma cabocla...
que deve mesmo ter cabeça oca!,
porque mais não me quer como seu par.

Agora, se acha “a loira do cross-fox”,
agora está podendo, o povo fala
que até picou a cara com botox.

A boca diz melhor quando se cala,
e disso não farei luta de box:
já “cai de laço” o povo a difamá-la.


Marcos Satoru Kawanami



quinta-feira, 22 de junho de 2017

IRMANDADE


IRMANDADE

Por não me achar poeta, tanto escrevo,
escrevo na ilusão que não ilude,
ainda que a ilusão seja atitude
que põe empenho nisso a que me atrevo.

Com método e solfejo, um dia, devo,
se disciplina até ao estro ajude,
escrevinhar ao máximo que pude,
de modo a ensejar algum enlevo.

Senão, que este poema tão patético
alcance, pelo menos, piedade
com seu desguarnecido senso estético.

Revogue assim a lei da gravidade,
indício de um qualquer valor hermético,
e encontre, entre os poetas, irmandade.


Marcos Satoru Kawanami


domingo, 14 de maio de 2017

CAGAÇO


CAGAÇO

O grilo estava ali, achando bom
fazer dentro do lixo cantoria;
acústica legal, muita alegria,
mas, de repente, veio o detefon.

Veneno é coisa que intervém no som...,
aquele rosto meigo que sorria,
agora, dá soluços de agonia,
fazendo seu cricri fora do tom.

Eu sou o mesmo grilo em forma humana,
cantando neste lixo ao qual me abraço,
e o lixo, desse modo, em mim se ufana.

Entanto, se por graça não me engraço,
que seja o detefon minha profana,
ignóbil conversão, pelo cagaço.


Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 1 de maio de 2017

NÃO ESCRITO - "Apelos pela paz são comoventes" (Glauco Mattoso)


NÃO ESCRITO

Ainda que bastante imaginada,
e sendo essencial em toda vida,
a paz tem sido sempre preterida
a tranco de fuzil, a fio de espada.

Caim matou Abel, e começada
estava a história tanto repetida
das guerras, todas elas fratricidas,
enquanto a paz jamais foi retomada.

Loucura ou desrazão, porém maldade
melhor define esse pendor maldito
a se autoflagelar a humanidade.

Discurso pela paz é bem bonito,
mas não têm tais discursos validade,
porquanto este daqui não foi escrito.


Marcos Satoru Kawanami



SONETO BÉLICO [273]

As armas, munições, armazenadas
são muitas vezes mais suficientes
para extinguir da Terra seus viventes,
e continuam sendo fabricadas.

Revólveres, canhões, fuzis, granadas,
torpedos, mísseis mis, bombas potentes,
festim, balas Dum Dum, cartuchos, pentes,
martelos, foices, paus, facões, enxadas.

Romanos, que eram bons de guerra e paz,
disseram: "Si vis pacem, para bellum.":
Parece que os modernos vão atrás.

Não quero exagerar no paralelo,
mas quanto menos ronda a bota faz,
mais folga ostentará o pé de chinelo.

Glauco Mattoso



SONETO PACIFISTA [274]

Apelos pela paz são comoventes:
Parece até que toda a raça humana
ou quase toda, unânime, se irmana
na firme oposição aos combatentes.

Campanhas e cruzadas e correntes
envolvem muita mídia e muita grana,
mas nada se compara à força insana
do gênio armamentista em poucas mentes.

Pombinhas, flores, nada disso importa
na hora da parada militar,
se acharmos que o perigo bate à porta.

A fim de protegermos nosso lar,
deixamos que haja tanta gente morta,
mas não aqui: só lá, noutro lugar.

Glauco Mattoso

domingo, 2 de abril de 2017

NADA


NADA

Não venhas me dizer que eu não te disse,
pois nunca digo nada sem dizer,
e muito tenho dito sem querer,
ainda que da fala prescindisse.

A fala tem seu viço, e, se eu a visse,
vibrantemente a iria descrever,
mas creio que o já faça ao escrever
com ledo esmero tanta cretinice.

Depois de expor o supra acima exposto,
redundo este pleonasmo gracioso,
antítese antagônica do oposto.

A fim de finalmente, num raivoso
final de apoteótico bom gosto,
dizer-te que, no dito, estou ditoso.


Marcos Satoru Kawanami