segunda-feira, 15 de agosto de 2016

CRONOLOGIA


CRONOLOGIA

Memória de um passado sem futuro,
agora, no futuro, o meu passado
procura de si mesmo o olvidado
pretérito imperfeito tão obscuro.

A cada instante, eu mais não sou, mas juro:
jurar transgride em muito o combinado,
porém deixo de estar onde hei estado,
a cada instante, e entanto me procuro.

Procuro, procurei, e procurava,
o fluxo ininterrupto nos ilude
que o presente não passa nem passava.

E, estando no passado, eu amiúde
o presente futuro imaginava,
fazendo futurismo enquanto pude.


Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 25 de julho de 2016

MISTO QUENTE


MISTO QUENTE

Algum lugar pensado, inexistente,
existe na memória do que existo,
ainda que o lugar eu tenha visto
no tempo sem pensar de estar contente.

Sentido algum me diz que agora sente
aquele tal lugar que sinto, e, nisto,
o mundo quer mostrar-se como um misto
de hambúrguer e bauru, um misto quente.

Mas em qualquer lugar felicidade
constrói o pensamento quando pode,
e agora humor feliz é o que me invade.

Pois danço minha pena no pagode
escrito nestes versos à vontade,
enquanto um povo doido se sacode.


Marcos Satoru Kawanami

quinta-feira, 21 de julho de 2016

ALGUM SONETO


ALGUM SONETO

Até sisuda aurora revogando
razões da sem razão que abunda bela,
absteve-se não ele nem aquela
por quem estavam todos esperando.

Ao passo que relembra a noite quando
beijou das bocas dela a que é banguela
vertendo das ideias na tigela
um verso que não este, mas quejando.

Assim os dois estavam proseando
conforme o bom costume tagarela,
enquanto a dita aurora foi chegando.

E agora algum soneto nos revela,
com tintas carregadas estampando,
a noite sem bocejo e sem remela.


Marcos Satoru Kawanami

quinta-feira, 14 de julho de 2016

ESPECULAÇÕES DE UM EFEITO DOMINÓ

https://www.youtube.com/watch?v=S8j7ojLpZNI
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ESPECULAÇÕES DE UM EFEITO DOMINÓ

Aranhas teias tecem sem pensar:
instinto?, mas o instinto pouco explica,
e, na verdade, tão somente indica
o muito que se tem a ignorar.

As bactérias desejam desvendar
se existe a humanidade, o vírus zica
sistema filosófico edifica
em que as bactérias possam se encaixar.

Dá cor e forma às flores instintivas
reações em cadeia, o DNA,
que é o cérebro na forma primitiva(?).

Então, você leitor(a) agora está
e sempre esteve sem alternativa
num destino que a química dará?


Marcos Satoru Kawanami


sábado, 9 de julho de 2016

ORDEM E PROGRESSO


ORDEM E PROGRESSO

Partindo do princípio que não parte
do fim qualquer princípio que começa
sem antes começar o que encabeça,
mas da finalidade o estado da arte:

Ora senão aqui ou mesmo em Marte,
onde irão encenar também a peça
da Humanidade, a qual produz à beça
lixo por todo canto e toda parte:

Estou, e muito obstante a fuleiragem,
escrevendo um rascunho de existir,
sem querer retratar o que é paisagem.

E digo mais, costumo ou ir ou vir,
porém fico parado a dar passagem
se é lama o que me impede progredir.


Marcos Satoru Kawanami


sexta-feira, 1 de julho de 2016

SE EU MORRER SEM GOZAR O SEU AMOR, MINHA ALMA LHE PERSEGUE DE PAU DURO - ao cantor e compositor cearense Falcão

https://www.youtube.com/watch?v=EUg1xF-HcZo
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SE EU MORRER SEM GOZAR O SEU AMOR,
MINHA ALMA LHE PERSEGUE DE PAU DURO
(ao cantor e compositor cearense Falcão)

Virgolina, uma noite com você
foi só sonho, você nunca me deu;
se você prometeu e não meteu,
magoou quem lhe ama, quem lhe crê.

Por que não escrever?, se você lê,
e, o caderno, você diz que é só meu;
se na praça me chama de Romeu,
por que no baile só me dá pavê?

Mas, se agora você toca terror
com vã filosofia sobre o muro,
eu hei de seu sofisma decompor.

Morrerei de tesão, mas, eu lhe juro,
se eu morrer sem gozar o seu amor,
minha alma lhe persegue de pau duro!

Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 30 de junho de 2016

O GAMBÁ E A CONDIÇÃO HUMANA


O GAMBÁ E A CONDIÇÃO HUMANA

Sarnento e definhando em mortuária
postura sorumbática cadente
aparece um gambá noturnamente
lá no pomar da dona Januária.

Em termos de gambá, tem faixa etária
de alguém que já viveu eternamente,
assombração albina e recorrente,
que é mais assombração por ser precária.

Não acho o que me diz o tal gambá,
talvez alguma coisa visceral,
alguma coisa ruim mas sem ser má.

Porém o bicho é feio, e, na real,
convocando a razão mais para cá,
cagaço não define a coisa mal...


Marcos Satoru Kawanami



O GAMBÁ

Meu falecido pai não deixava
passar um só gambá batido.
À panela, o pobre bicho, levava,
cozia e comia num zás o fedido.

Ainda vinha e me oferecia,
mas nem matando eu comeria.
Dizia-me ter gosto de galinha
mesmo fedendo toda a cozinha.

Eu falava: "Não quero nem saber,
isso não como, prefiro morrer."
Ele dava de ombro e só ria.

Sobrava mais para ele comer.
Então, beleza, era só alegria.
Menos pro gambá que tudo fedia.

Rosemeri Carla Pellens


sexta-feira, 10 de junho de 2016

SARAPATEL

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SARAPATEL

Vai-se a primeira pomba despertada,
sai do pombal ao meu encontro, certa
que o seu cocô me acertará, e acerta
a bomba de cocô teleguiada.

Direis então: — Coitado camarada,
ama para entender, cloaca aberta,
cagada na camisa, é um alerta,
melhor nem trabalhar nesta jornada... —.

E quanta gente, usando uma camisa
limpa, engomada e nova, sai vaidosa
sem temer o que pelo céu desliza.

Porém, feito uma chaga cancerosa,
um mal secreto cai e lhe matiza
a roupa, que antes era tão vistosa!

Marcos Satoru Kawanami



AS POMBAS

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...

Raimundo Correia



OUVIR ESTRELAS

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

Olavo Bilac



MAL SECRETO

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

Raimundo Correia

quarta-feira, 8 de junho de 2016

CAFEÍNA A LOTE


CAFEÍNA A LOTE

Trincado, insone, cafeína a lote,
foi tudo ao mesmo tempo o tempo todo;
deitado na sarjeta, inalo lodo
cegado pela luz de um holofote.

Capotei de repente num pinote,
dormi ou desmaiei, só não me explodo
pois tal conjugação é feito fodo,
dois verbos lacerados a serrote.

E tudo nunca acaba, sempre existe
a coisal existência do planeta,
este vácuo que em ser matéria insiste.

Porém acabará minha opereta,
e, quando ela acabar, terei em riste
a cruz, e minha cruz: esta caneta.


Marcos Satoru Kawanami


domingo, 5 de junho de 2016

COVEIRO

http://gshow.globo.com/webseries/causos-do-ze-coveiro/no-ar.html
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COVEIRO

Mudei-me para o bairro do pé junto,
lugar calmo e de muita urbanidade,
porém recanto morto da cidade,
pois, pra vizinho, tenho só defunto.

Eu mesmo me respondo se pergunto,
e, sem por que falar amenidades,
já penso com maior profundidade,
comendo pão de queijo com presunto.

Coveiro sou, estou a edificar
um bairro para baixo, nos canteiros
onde todos irão se aconchegar.

Sou construtor dos lares derradeiros,
e vou cavando sem me preocupar,
pois nunca vi enterro de coveiro!


Marcos Satoru Kawanami