quarta-feira, 22 de novembro de 2017

gol de bunda


gol de bunda

nas coisas mais ou menos há bom uso
da graça do improviso funcional:
um verso pé quebrado ou coisa e tal,
um prego no lugar de um parafuso,

a explícita presença do confuso,
a má compreensão que não faz mal,
a prova que não é prova cabal,
o meia boca agudo em sendo obtuso,

o duvidoso que por fim dá certo,
sabença na cegueira mais profunda
do bobo que demonstra ser esperto,

esta alegria que nos sempre inunda
ainda que a sofrência esteja perto,
um gol de placa, mas... um gol de bunda.


marcos satoru kawanami


terça-feira, 21 de novembro de 2017

o vento


o vento

nos planos de papel, bateu um vento,
um vento forte, o vento do destino,
devido ao qual somente agora atino
que muita vez é vão planejamento.

das coisas que tentei, enfim, atento
que desde a madrugada ao sol a pino
somente o incogitado é o que ora assino
e reconheço ser de bom intento.

bendito vento, santa mão do céu;
contrariando-me, o melhor se fez
melhor que aqueles planos de papel.

de modo que agradeço toda vez
se um vento sobre mim depõe seu véu
de proteção tocando minha tez.


marcos satoru Kawanami


sábado, 18 de novembro de 2017

A FEDELHA


A FEDELHA

Fedelha afeiçoada a um bom conflito,
a filha de seu pai, que a desconhece,
inspira muita gente a fazer prece,
inspira este soneto, em que reflito.

Esmera-se em no mal fazer bonito,
quer ser o espeto em tudo que acontece,
pois ela está sozinha, e grande é a messe,
faz arte pela arte..., entanto a imito(?).

Fedelho que já fui feliz um dia,
agora só contemplo o refinado
bom gosto do mau gosto com saudade.

No tempo em que escrever eu não sabia,
melhor talvez teria sonetado,
com menos rima rica, e mais verdade.


Marcos Satoru Kawanami


terça-feira, 14 de novembro de 2017

ESSE GALO BOTA OVO


ESSE GALO BOTA OVO

Gaudêncio, de carranca, e barba hirsuta,
macheza exala em todo canto e hora,
não dá vazão à fala, nunca chora,
mas sei que já provou de estranha fruta...

Daí provém a sua inútil luta,
fugindo e procurando jogar fora
passado que hoje em dia lhe penhora,
porquanto ao que aparenta não se suta.

Coitado do Gaudêncio, virou galo,
um galo que alguns ovos tem botado...
mantendo a crista sem qualquer abalo.

E parece que o mesmo triste fado
faz eco quando alguém põe-se a cantá-lo,
alguém que por aí já deu o dado.


Marcos Satoru Kawanami


sábado, 11 de novembro de 2017

ASPAS - sátira - gírias e expressões humorísticas



ASPAS

Naiara enfim habita um belo lar
depois de tantos anos de maloca,
mas dizem que ela se acha “o gás da coca”,
pois maldizer é gosto popular.

Desafeito à tosquice de maldar,
eu acho que Naiara é uma cabocla...
que deve mesmo ter cabeça oca!,
porque mais não me quer como seu par.

Agora, se acha “a loira do cross-fox”,
agora está podendo, o povo fala
que até picou a cara com botox.

A boca diz melhor quando se cala,
e disso não farei luta de box:
já “cai de laço” o povo a difamá-la.


Marcos Satoru Kawanami



quinta-feira, 22 de junho de 2017

IRMANDADE


IRMANDADE

Por não me achar poeta, tanto escrevo,
escrevo na ilusão que não ilude,
ainda que a ilusão seja atitude
que põe empenho nisso a que me atrevo.

Com método e solfejo, um dia, devo,
se disciplina até ao estro ajude,
escrevinhar ao máximo que pude,
de modo a ensejar algum enlevo.

Senão, que este poema tão patético
alcance, pelo menos, piedade
com seu desguarnecido senso estético.

Revogue assim a lei da gravidade,
indício de um qualquer valor hermético,
e encontre, entre os poetas, irmandade.


Marcos Satoru Kawanami


domingo, 14 de maio de 2017

CAGAÇO


CAGAÇO

O grilo estava ali, achando bom
fazer dentro do lixo cantoria;
acústica legal, muita alegria,
mas, de repente, veio o detefon.

Veneno é coisa que intervém no som...,
aquele rosto meigo que sorria,
agora, dá soluços de agonia,
fazendo seu cricri fora do tom.

Eu sou o mesmo grilo em forma humana,
cantando neste lixo ao qual me abraço,
e o lixo, desse modo, em mim se ufana.

Entanto, se por graça não me engraço,
que seja o detefon minha profana,
ignóbil conversão, pelo cagaço.


Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 1 de maio de 2017

NÃO ESCRITO - "Apelos pela paz são comoventes" (Glauco Mattoso)


NÃO ESCRITO

Ainda que bastante imaginada,
e sendo essencial em toda vida,
a paz tem sido sempre preterida
a tranco de fuzil, a fio de espada.

Caim matou Abel, e começada
estava a história tanto repetida
das guerras, todas elas fratricidas,
enquanto a paz jamais foi retomada.

Loucura ou desrazão, porém maldade
melhor define esse pendor maldito
a se autoflagelar a humanidade.

Discurso pela paz é bem bonito,
mas não têm tais discursos validade,
porquanto este daqui não foi escrito.


Marcos Satoru Kawanami



SONETO BÉLICO [273]

As armas, munições, armazenadas
são muitas vezes mais suficientes
para extinguir da Terra seus viventes,
e continuam sendo fabricadas.

Revólveres, canhões, fuzis, granadas,
torpedos, mísseis mis, bombas potentes,
festim, balas Dum Dum, cartuchos, pentes,
martelos, foices, paus, facões, enxadas.

Romanos, que eram bons de guerra e paz,
disseram: "Si vis pacem, para bellum.":
Parece que os modernos vão atrás.

Não quero exagerar no paralelo,
mas quanto menos ronda a bota faz,
mais folga ostentará o pé de chinelo.

Glauco Mattoso



SONETO PACIFISTA [274]

Apelos pela paz são comoventes:
Parece até que toda a raça humana
ou quase toda, unânime, se irmana
na firme oposição aos combatentes.

Campanhas e cruzadas e correntes
envolvem muita mídia e muita grana,
mas nada se compara à força insana
do gênio armamentista em poucas mentes.

Pombinhas, flores, nada disso importa
na hora da parada militar,
se acharmos que o perigo bate à porta.

A fim de protegermos nosso lar,
deixamos que haja tanta gente morta,
mas não aqui: só lá, noutro lugar.

Glauco Mattoso

domingo, 2 de abril de 2017

NADA


NADA

Não venhas me dizer que eu não te disse,
pois nunca digo nada sem dizer,
e muito tenho dito sem querer,
ainda que da fala prescindisse.

A fala tem seu viço, e, se eu a visse,
vibrantemente a iria descrever,
mas creio que o já faça ao escrever
com ledo esmero tanta cretinice.

Depois de expor o supra acima exposto,
redundo este pleonasmo gracioso,
antítese antagônica do oposto.

A fim de finalmente, num raivoso
final de apoteótico bom gosto,
dizer-te que, no dito, estou ditoso.


Marcos Satoru Kawanami


terça-feira, 28 de março de 2017

ÚLTIMA FLOR DO MANGUE


ÚLTIMA FLOR DO MANGUE

Acerca dos achismos, tenho achado
que vai haver achismo sempre e tanto
que de me achar achando não me espanto,
ainda que não tenha procurado.

Achei que agora tenho escrevinhado
o nada essencial de algum encanto,
o pranto que comove e leva ao pranto
por tanta nulidade, que até nado.

Última flor do mangue, incauta e bela,
a fim de não achar que achou errado,
é sempre necessário ter cautela.

De modo que aqui jaz, arrazoado,
defunto meu achismo tagarela
no paletó de pau abotoado.


Marcos Satoru Kawanami