quinta-feira, 22 de junho de 2017

IRMANDADE


IRMANDADE

Por não me achar poeta, tanto escrevo,
escrevo na ilusão que não ilude,
ainda que a ilusão seja atitude
que põe empenho nisso a que me atrevo.

Com método e solfejo, um dia, devo,
se disciplina até ao estro ajude,
escrevinhar ao máximo que pude,
de modo a ensejar algum enlevo.

Senão, que este poema tão patético
alcance, pelo menos, piedade
com seu desguarnecido senso estético.

Revogue assim a lei da gravidade,
indício de um qualquer valor hermético,
e encontre, entre os poetas, irmandade.


Marcos Satoru Kawanami


domingo, 14 de maio de 2017

CAGAÇO


CAGAÇO

O grilo estava ali, achando bom
fazer dentro do lixo cantoria;
acústica legal, muita alegria,
mas, de repente, veio o detefon.

Veneno é coisa que intervém no som...,
aquele rosto meigo que sorria,
agora, dá soluços de agonia,
fazendo seu cricri fora do tom.

Eu sou o mesmo grilo em forma humana,
cantando neste lixo ao qual me abraço,
e o lixo, desse modo, em mim se ufana.

Entanto, se por graça não me engraço,
que seja o detefon minha profana,
ignóbil conversão, pelo cagaço.


Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 1 de maio de 2017

NÃO ESCRITO - "Apelos pela paz são comoventes" (Glauco Mattoso)


NÃO ESCRITO

Ainda que bastante imaginada,
e sendo essencial em toda vida,
a paz tem sido sempre preterida
a tranco de fuzil, a fio de espada.

Caim matou Abel, e começada
estava a história tanto repetida
das guerras, todas elas fratricidas,
enquanto a paz jamais foi retomada.

Loucura ou desrazão, porém maldade
melhor define esse pendor maldito
a se autoflagelar a humanidade.

Discurso pela paz é bem bonito,
mas não têm tais discursos validade,
porquanto este daqui não foi escrito.


Marcos Satoru Kawanami



SONETO BÉLICO [273]

As armas, munições, armazenadas
são muitas vezes mais suficientes
para extinguir da Terra seus viventes,
e continuam sendo fabricadas.

Revólveres, canhões, fuzis, granadas,
torpedos, mísseis mis, bombas potentes,
festim, balas Dum Dum, cartuchos, pentes,
martelos, foices, paus, facões, enxadas.

Romanos, que eram bons de guerra e paz,
disseram: "Si vis pacem, para bellum.":
Parece que os modernos vão atrás.

Não quero exagerar no paralelo,
mas quanto menos ronda a bota faz,
mais folga ostentará o pé de chinelo.

Glauco Mattoso



SONETO PACIFISTA [274]

Apelos pela paz são comoventes:
Parece até que toda a raça humana
ou quase toda, unânime, se irmana
na firme oposição aos combatentes.

Campanhas e cruzadas e correntes
envolvem muita mídia e muita grana,
mas nada se compara à força insana
do gênio armamentista em poucas mentes.

Pombinhas, flores, nada disso importa
na hora da parada militar,
se acharmos que o perigo bate à porta.

A fim de protegermos nosso lar,
deixamos que haja tanta gente morta,
mas não aqui: só lá, noutro lugar.

Glauco Mattoso

domingo, 2 de abril de 2017

NADA


NADA

Não venhas me dizer que eu não te disse,
pois nunca digo nada sem dizer,
e muito tenho dito sem querer,
ainda que da fala prescindisse.

A fala tem seu viço, e, se eu a visse,
vibrantemente a iria descrever,
mas creio que o já faça ao escrever
com ledo esmero tanta cretinice.

Depois de expor o supra acima exposto,
redundo este pleonasmo gracioso,
antítese antagônica do oposto.

A fim de finalmente, num raivoso
final de apoteótico bom gosto,
dizer-te que, no dito, estou ditoso.


Marcos Satoru Kawanami


terça-feira, 28 de março de 2017

ÚLTIMA FLOR DO MANGUE


ÚLTIMA FLOR DO MANGUE

Acerca dos achismos, tenho achado
que vai haver achismo sempre e tanto
que de me achar achando não me espanto,
ainda que não tenha procurado.

Achei que agora tenho escrevinhado
o nada essencial de algum encanto,
o pranto que comove e leva ao pranto
por tanta nulidade, que até nado.

Última flor do mangue, incauta e bela,
a fim de não achar que achou errado,
é sempre necessário ter cautela.

De modo que aqui jaz, arrazoado,
defunto meu achismo tagarela
no paletó de pau abotoado.


Marcos Satoru Kawanami


domingo, 26 de março de 2017

RIMA OBRIGATÓRIA

Qual é a da parada aí?

RIMA OBRIGATÓRIA

Fazer o bem, fazer alguém feliz
ao ler algum poema divertido,
de minha parte, muita vez tem sido
o lema para os versos que já fiz.

Porém tal intenção se escreve a giz,
não vejo o humor pra sempre ser retido
nas almas bem escassas que têm lido
a minha gozação, que nada diz.

Então, este soneto será triste
feito uma punhalada na rabeta,
e aqui sinto que alguém de ler desiste...

Mas gosta de bobagem a caneta,
porquanto quer lembrar, e nisso insiste,
que aceitará rimar só com buceta.


Marcos Satoru Kawanami


quinta-feira, 16 de março de 2017

PARECERES


PARECERES

Existem pareceres parecidos,
mas fazem todos eles desavença
porque cada cabeça é uma sentença
conforme a distorção do que é sentido.

E tem um entra-e-sai prevalecido
no meio de entendidos da sabença,
que leva-me a supor que não compensa
posar de sabichão ou de entendido.

Verdade é uma só, o resto empata
em ditos de verdades parciais
da razão, que pretende ser exata.

Exata é a unidade, tudo mais
desune, desagrega, desacata
às minúcias infinitesimais...


Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 6 de março de 2017

PARÓDIA A “ROSA” DE PIXINGUINHA



PARÓDIA A “ROSA” DE PIXINGUINHA

Tu vais fazer o que em Marte?,
se lá é tão frio. O amor
de certo não existe
num planeta sem ardor
que vem a me fazer supor
que seja onde for
aqui na Terra tu estarás muito melhor.

Se Deus nos fez este ambiente
aqui tão coerente, divino,
pra que esculhambar assim a nossa Terra?
Teu coração lá será lacerado,
gelado e petrificado sobre a murcha flor
desse teu peito ateu.

Tu vais te encarcerar legal
naquela espacial colônia penal
do meu falido amor, subido(?) amor.
Tu vais levar muito mais longe a flor.
Tu vais fazer na Criação
rombuda expansão, chego a supor.

O riso, a fé, a dor
em Marte chegarão, mas não terão sabor
em vozes tão dolentes, seja como for.
És láctea estrela,
és Via-Láctea estrela,
és tudo enfim que tem cabelo
em todo despudor da santa natureza.

Perdão se ouso confessar-te:
eu hei de ir sempre a Marte!
Oh, flor, meu peito não consiste,
e tamanha inconsistência é triste
na vã promessa exorbitante
que vais um dia orbitar,
e orbitar naquele
tal lugar.

Fincar teu pé onipotente
em solo avermelhado, e a dor,
a dor é minha só por tua ingratidão.
Depois, se eu tiver paciência,
escrevo à Ciência
carta em que dissertarei meu parecer
do teu enlouquecer.

Marcos Satoru Kawanami

sábado, 25 de fevereiro de 2017

SONETO DE GRAÇA


SONETO DE GRAÇA

Gratuito, gracioso, gratidão,
a graça se expressando livremente
distante da rapina do aparente
despreza da aparência a servidão.

É livre todo aquele bom cristão
que mesmo encarcerado está contente,
contraste na desgraça inconsequente
do mundo, pois conhece a salvação.

A graça de Maria é seu exemplo,
a graça de Jesus é seu destino,
a fé é sua graça e amuleto.

Almejo, testemunho, enfim contemplo
a sã gratuidade do divino
que entrega-me de graça este soneto.


Marcos Satoru Kawanami


sábado, 18 de fevereiro de 2017

COBAIAS SOMOS?


COBAIAS SOMOS?

Razões ocultas por nenhum motivo
motivam ocultar razão nenhuma,
e resta sobre a terra a espessa bruma
da dúvida que serve de incentivo.

Em tudo põe a dúvida seu crivo,
e dela não escapa coisa alguma
que tenha vida ou não, e ainda, em suma,
até o que está morto mas foi vivo.

Da dúvida duvida-se, porém
assim mais uma dúvida acontece,
de dúvida mais dúvida se tem.

Coitada dessa gente que padece,
não sabe pra onde vai nem de onde vem,
cobaias somos nós, é o que parece?


Marcos Satoru Kawanami